Não tenho raízes nordestinas
Também não sou repentista
Não tenho intenção de ser celebre
E nem tampouco um artista
Mais uma coisa tenho certeza
E afirmo com toda firmeza
Destilo versos à vista.
Posso escrever versos
De um simples fato narrado
De uma piada ou história
Faço verso montado
Aqui cumpro meu papel
Sou escritor de cordel
Pois pra isso fui chamado.
O caso que aqui vou narrar
Aconteceu e eu garanto,
Pois conheci o personagem
Chamava-se Graça do Santo
Um homem de índole nobre
Nem tão rico nem tão pobre
Mais ou menos em seu canto.
Graça uma certa vez
Resolveu sair pra caçar
Disse pra sua família
Eis que eu vou viajar
Vou ficar um dia fora
Mais voltarei sem demora
Assim que logo eu matar.
Sua esposa ficou encucada
Porque não era costume seu
Viajar daquela forma
Como tudo se sucedeu
Com a pulga atrás da orelha
Acendeu-lhe uma centelha
De um ciúme que então bateu.
Ela chamou os seus filhos
Não estou entendendo seu pai
Ele disse que vai caçar
Mais ele quase não sai
E o que mais me assustou
Foi quando ele me falou
Sem matar voltar não vai.
Os filhos não se preocuparam
E o Graça já estava no mato
Ele levou a espingarda boa
E sua faca de fino trato
Levou alimentação
Que comprou no São João
Do senhor Tavico Malato.
Passaram dois ou três dias
E nada do Graça voltar
A esposa estava inquieta
Mais não queria demonstrar
Guardava em seu coração
Aquela inquietação
Que em algo trágico iria resultar.
No terceiro dia da angustia
Eis que uma noticia chegou
E correu logo a cidade
Que em segundos se apavorou
Disseram ter encontrado
O Graça assassinado
No perímetro que viajou.
Dona Raimunda ao ouvir aquilo
Disse não pode ser
Meu coração me contou
Que algo estava a acontecer
Lhe deu logo um passamento
E no afã do momento
Precisou de ajuda pra viver.
A casa do Graça encheu de gente
Parentes, amigos e curiosos
Era choro pra todo lado
Pareciam ser artistas famosos
Muita gente perguntando
Como aconteceu e quando
Estavam todos ansiosos.
Os amigos de influência
Tomaram a rédea da situação
Vamos ver o que podemos fazer
Para buscar o corpo de nosso irmão
Ele era uma boa gente
Não deve morrer como indigente
Nas trevas da solidão.
Chamaram logo a policia
Conversaram com o delegado
Ele convocou os bombeiros
Que vieram de outro estado
E preparou alguns policiais
Com as ordens iniciais
Todo mundo vá bem armado.
Enquanto se preparavam
A noticia ia aumentando
Disseram que quem matou
Estava escondido esperando
Quem fosse buscar o corpo
Ali mesmo seria morto
Por um pistoleiro de bando.
Disseram também ainda
Que o corpo estava estirado
O assassino matou-o com o tiro
Mais havia lhe degolado
Um macabro assassinato
Aconteceu naquele mato
Era por todos narrado.
A guarnição policial
Se armou até os dentes
Pegaram uma voadeira blidanda
Investigadores inteligentes
E do trapiche municipal
As dez horas matinal
Saiu o tal contingentes.
Enquanto isso a cidade toda
Lamentava a morte do Graça
Por todo canto onde se ia
O assunto era a tal desgraça
Rádio e publicidade
Diziam com intensidade
Que ele sofreu ameaça.
Até jornais da capital
Com a família fizeram contato
Pra colocar na primeira página
Caçador é morto no mato
Veio até televisão
Cobrir a ocasião
Daquele horrendo fato.
Os amigos mais chegado
Logo se juntaram
Em preparar o velório
Eles se prontificaram
Arrumaram uma boa despesa
Acenderam vela na mesa
Até a casa eles ajeitaram.
A família estava consternada
Ninguém aguentava sem chorar
O Graça era amigo de todos
Repetiam isso sem parar
A situação era comovente
Mesmo quem não era parente
Lágrimas vinham rolar.
Até mesmo no cemitério
Muita gente estava visitando
As beatas da cidade
Choravam se lamentando
Se ouvia em cada canto
Esse homem vai virar santo
Vamos ficar é rezando.
Um advogado amigo
Aproveitando a euforia
Disse para a esposa
Sem delongas naquele dia
Após o enterro passar
Pessoalmente vou tratar
Sobre a sua aposentadoria.
Teve pessoas que vendo o fato
Começaram então aparecer
Ele me devia uma conta
Vou perdoar e dizer
Deus lhe dê um bom lugar
E que ele possa me ajudar
É isso que eu vou querer.
No jornal do meio dia
A noticia logo passou
Assassinaram um caçador
E o assassino decepou
O corpo fora do pescoço
Está o maior alvoroço
E a polícia ainda não o encontrou.
Quando foi por volta das cinco
O povo ficou aglomerado
Na frente de nossa cidade
Aguardando um comunicado
Esperando a polícia chegar
Para o corpo desembarcar
E o velório ser iniciado.
A frente da cidade ficou tomada
Por toda a população
Tinha padre tinha pastor
Tinha freira e sacristão
Tinha político e tinha doutor
Gente da cidade e do interior
Todos na mesma emoção.
Eu confesso pra vocês
Que nunca vi tanta gente
Nem no círio da padroeira
Há concentração tão presente
Não havia lugar pra passar
Esperando o corpo chegar
Era muito deprimente.
O carro do IML
Ficou no trapiche estacionado
Pronto para conduzir
O esquife degolado
Como o calor era intenso
Houve até vendedor de lenço
Que deve ter faturado.
E as noticias eram repassadas
Através da radio voz do dia
Em uma programação especial
A cidade estava sem alegria
Era musica de funeral
Que se ouvia em cada local
Pelo que se sucedia.
Os comércios fecharam as portas
O prefeito logo decretou
Haverá luto de uma semana
Tudo então parou
Até uma escola sem nome
Para homenagear esse homem
Escola do Graça se chamou.
Era grande a consternação
E o povo não arredava o pé
Já ia dar sete da noite
Começou a vazar a maré
E nada de chegar a polícia
Não se tinha mais notícia
Ali via-se o exercício da fé.
As pessoas traziam flores
Várias coroas para oferecer
Nomes de deputados, vereadores
E do prefeito eu pude ler
Eram tantas homenagens
Que chegavam como mensagens
Foi ai que eu pude entender.
O povo gostava do Graça
Sujeito anônimo ate então
Só depois do ocorrido
Que ele ganhou notificação
Realmente era um homem querido
Quem poderia ter tido
Matado esse amigo e irmão.
Quinze pra sete da noite
Começou o maior alvoroço
Ouviram o barulho da voadeira
Que passavam em frente do poço
Com mais dois estirões
Foram essas as informações
Eles traziam o corpo do moço.
O padre trouxe um crucifixo
O pastor pediu concentração
Todos vestidos de preto
Começaram uma oração
Aguardando a voadeira chegar
Já até se podia enxergar
O comboio vindo em direção.
Como já era noite
Estava difícil reconhecer
Quem vinha naquela embarcação
Ninguém e nada se podia ver
Apenas vozes conversando
A polícia estava isolando
Pra nenhum tumulto acontecer.
Assim que a polícia ancorou
No trapiche municipal
O primeiro a sair da voadeira
Da maneira mais natural
Era o próprio Graça
Que saiu andando para a praça
Ao encontro de seu pessoal.
Quando ele viu a multidão
Falou para todo mundo ouvir
Não aconteceu nada
Meu povo estou aqui
Essa cidade me ama
Esse amor é como um chama
Como candidato vou vir.
Na eleição pra vereador
Ele então se candidatou
Seus votos foram tão poucos
Todo mundo se admirou
É que todos queriam ver o Graça
Chegar morto naquela praça
Mais vivo ninguém o votou.
J untei então as lembranças
O uvindo a voz da memória
R imei um fato real
G erando um escrito de história
I mplicando na relação de boatos
N inguém pode em tudo acreditar
H avendo a veracidade
O utra vez estarei pra rimar.

