OS LIGEIROS DO PINDOBAL - Jorginho


Eu não gosto de contar
Coisas que me foi contada
Porque um diz que é mentira
Outro diz que é palhaçada
Um diz que acredita
Outro que é coisa inventada.

Mas como em nosso mundo
De tudo vive composto
Quando um não acredita
Em um caso meio suposto
Outro diz que é verdade
Acreditando que dá gosto.

Eu morava no Pindobal
Quando esse fato presenciei
Eram duas figuras diferentes
E que nunca me esquecerei
Um era negro e forte
E que de Ambrósio o chamarei.

O outro era bem claro
E morava no grande Pindobal
Seu porte era franzino
Era gente muito legal
Até os cabelos eram brancos
E se chamava Vital.

Os dois da mesmo profissão
Artesões por natureza
Na arte de fazer cascos
Mostravam suas destreza
Eram exímios profissionais
Por aquelas redondezas.

Algo que unia sempre
Aqueles dois profissionais
Eram duas coisas simples
Eles eram ligeiros demais
Só davam pra trabalhar juntos
Pois nenhum ficava pra traz.

A outra coisa que marcava
Era na hora da comida
Comiam mais que todo mundo
Em cada mesa servida
Quando a refeição não lhes enchiam
Inventavam outra saída.

Tinha gente que lhes chamavam
Para em sua casa comer
Só pra apreciar o espetáculo
Que dava gosto de ver
Os dois comiam de tudo
Com gosto e muito prazer.

Dez litros de açaí
Era apenas uma oferenda
Meio alqueire de farinha
Comiam como uma prenda
E mais de dez quilos de carne
Diziam que era merenda.

Uma vez eles foram almoçar
Na casa do Seu José
Porco com vinho de miriti
Tirado do próprio pé
Eles arremataram toda a comida
E no final tomaram um chibé.

Peixe assado comiam de cento
No toucinho se lambuzavam
Camarão uns dez quilos
Era o que eles merendavam
Pastel embebido no óleo
Uns cinquenta arrematavam.

Ambrósio sempre dizia
Vamos comer enquanto tem
Pois é isso que vamos levar
Quando formos para o além
Comer de tudo dizia Vital
Isso sempre nos faz bem.

Um dia os dois foram trabalhar
Quando lá dentro do mato estavam
Para fazer mais um casco
Que os clientes lhe encomendavam
Cada um ficava de um lado
Era sempre assim que trabalhavam.

Estavam os dois suando
Lavrando a madeira no lado
Cada qual com sua ferramenta
Um machado bem amolado
Que parecia uma gilete
De bastante que era afiado,

Na fadiga daquele trabalho
De repente surgiu um perigo
O machado de Vital soltou-se
E no Ambrósio ia fazer abrigo
Ele só disse lá vai compadre
E o Ambrósio disse: - Já peguei amigo.

Vital olhou espantado
Meu compadre eu fiquei com medo
Se o machado lhe acertasse
Você ia encontrar com São Pedro
Mais você é muito ligeiro
Me conte qual é seu segredo.

Ambrósio sorriu e disse
Nós temos a mesma mania
Se você não me avisasse
Enquanto eu me distraia
Eu não ia me livrar do ferro
Com certeza ele me feria.

Outra vez eles estavam no mato
Por culpa da profissão
De repente começou a escurecer
Parecia uma cerração
Vinha arriando um temporal
Com chuva e muito trovão.

Ambrósio disse e agora
Aqui estamos perdidos
Vital pegou o seu facão
Não vamos perder os sentidos
Cortou alguns paus e palhas
Sem fazer nenhum alarido.

E em um instante no local
Construiu uma cabana
Quando caiu o temporal
Abrigaram-se na choupana
E com farinha eles comiam
Cinco dúzias de banana.

Depois que tudo passou
Ambrósio disse ao Vital
Amigo o nosso mundo
Parece fora do normal
Vamos sempre andar juntos
Pra nós isso é natural.

Outra vez eles iam passando
Em uma ponte em cima do rio
De repente a ponte quebrou
E no espinhaço sentiram frio
E lá estavam os ligeiros
Em mais um grande desafio.

Rapidamente tiraram suas roupas
E na água caíram pelados
Levantaram as peças nas mãos
Para que não fossem mergulhados
E saindo para a beira do rio
Se vestiram sem serem molhados.

E foram muitas as proezas
Que esses dois amigos aprontaram
Dava pra escrever muitos livros
Outros casos que eles narraram
E para a nossa memória
Escrevi estes porque me contaram.

Os moradores gostavam dos dois
Eles eram muito trabalhadores
Comiam um pouquinho a mais
Mais não causavam horrores
A semana deles eram cheias
Seus dotes lhe davam valores.

Quando tinha um mutirão
Para fazer qualquer roçado
Sem de longas os ligeiros
Eram sempre convidados
O trabalho rendia muito
E eles eram engraçados.

A dupla como já disse
Os amigos nunca esquecem
São pessoas que os seus atos
Para sempre o enternecem
E suas histórias são contadas
Para os que não os conhecem.

Já cumpri o me intento
Onde descrevi o natural
Rimando em versos simples
Gotas de um enredo legal
Indícios de uma bravura
No campo fenomenal
Hoje rimei com destreza

Os ligeiros do Pindobal.

1 Comentários

  1. Primo Parabens pelos conto e mantendo a memoria de dois Homem de grande destreza e valores.

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